Demência por corpos de Lewy se caracteriza por declínio cognitivo em vários aspectos


O cantor Milton Nascimento, de 82 anos, foi diagnosticado com demência por corpos de Lewy (DCL), um dos tipos mais comuns da doença. A revelação foi feita pelo filho do artista, Augusto Nascimento, em entrevista publicada pela Revista Piauí nesta quinta-feira, 2.

Segundo Ana Carolina Gomes, neurologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz especializada em memória, as demências, de modo geral, se caracterizam por um declínio cognitivo, causado pela alteração na função cerebral.

Esse declínio afeta a memória, a função executiva e a capacidade de se orientar no espaço e no tempo, além de estar associado à perda de funcionalidade. “Ou seja, coisas que o paciente conseguia fazer antes, agora ele passa a ter dificuldade”, explica.

A demência por corpos de Lewy, porém, tem uma característica muito particular. “Além do declínio cognitivo, também há sintomas de síndrome parkinsoniana, que é muito parecida com a doença de Parkinson. O paciente pode ter tremor, rigidez e dificuldade e lentidão para andar, além da instabilidade postural”, adiciona.

Outra característica é que o declínio cognitivo e os sintomas parkinsonianos acontecem de forma concomitante. Eles surgem juntos ou com um intervalo de, no máximo, um ano.

O quadro também causa alucinações visuais recorrentes. “Elas são muito frequentes e bem características. O paciente enxerga pessoas ou animais que não existem. Outra característica são as ilusões. Muitas vezes, ele vê um objeto, mas enxerga outro. Por exemplo, o paciente pode olhar para uma cortina e interpretar que aquilo é um animal”, detalha Ana.

Esses sintomas podem ocorrer com outros tipos de demências, mas no caso da DCL eles acontecem de forma precoce e bem marcada.

Charlys Barbosa Nogueira, geriatra e membro da Comissão de Inovação em Doença de Alzheimer e Demências da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), acrescenta que os pacientes também podem apresentar delírios de perseguição e quadros de agitação psicomotora. “Tais sintomas devem ser controlados, pois provocam muito estresse. Tanto para o paciente quanto para os familiares”, pontua.

Fatores de risco

Nogueira destaca que os fatores de risco ainda não são muito conhecidos, mas costumam se assemelhar aos de outras formas de demência, incluindo idade avançada, baixa escolaridade, problemas cardiovasculares, perda auditiva ou visual, solidão e inatividade física, entre outros. Um ponto importante é que os homens apresentam maior propensão a desenvolver a condição. Além disso, o histórico familiar também merece atenção.

Vale ressaltar que o envelhecimento é um fator de risco, mas não é determinante para o surgimento da DCL e de outros tipos de demência. Outro ponto de destaque é a escolaridade. Continuar estudando e aprendendo coisas novas é uma forma de manter a mente ativa e ajuda na proteção contra a doença.

“O nível de escolaridade é muito importante na infância. Então, se você teve o ensino fundamental, ensino médio e graduação completos, por exemplo, isso vai protegê-lo no futuro. Mas manter o cérebro funcionando ao longo dos anos é muito importante. A gente costuma falar para os pacientes que o cérebro é como se fosse um músculo: da mesma forma que temos de ir à academia para manter os músculos fortes, também precisamos exercitar o cérebro”, diz Ana.

Ela ainda explica que, ao longo da vida, as pessoas constroem uma reserva cognitiva por meio de atividades acadêmicas, físicas e laborais. “Quando ficamos mais velhos ou temos uma lesão neurológica, podemos ir gastando essa reserva. Quanto maior ela for, menor o risco de desenvolvermos um quadro demencial.”

Tratamento

De acordo com Nogueira, o tratamento se divide entre farmacológico e não farmacológico.

No âmbito não farmacológico, é muito importante investir na reabilitação física e mental, que inclui exercícios para estimular o cérebro, atividade física, fisioterapia e terapia ocupacional.

Segundo Ana, a fisioterapia pode ajudar a melhorar a marcha e o equilíbrio, enquanto a terapia ocupacional é mais indicada para lidar com o tremor. Além disso, a terapia pode ajudar o paciente a realizar tarefas do dia a dia, como comer ou escovar os dentes, usando objetos adaptados e utensílios especiais.

Quanto às medicações, os remédios mais comuns são parecidos com os usados no tratamento do Alzheimer, principalmente os anticolinesterásicos, que ajudam a atrasar a progressão da doença. Também podem ser usados medicamentos para controlar sintomas específicos, como antidepressivos e ansiolíticos, que ajudam a tratar depressão e ansiedade, além de remédios para dor ou outros problemas que o paciente possa apresentar.

A médica alerta que pacientes com demência por corpos de Lewy são muito sensíveis a antipsicóticos, então o uso dessa classe de remédios exige muito cuidado.



Por: Estadão Conteúdo

Estadão

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