Após a vitória por 1 a 0 sobre o Santos, neste domingo, na Vila Belmiro, pelo Campeonato Brasileiro, o técnico Renato Paiva falou como treinador do presente, mas com os olhos voltados para o desafio do futuro. O Botafogo venceu, subiu na tabela, mas o que vem pela frente é ainda mais desafiador: o Mundial de Clubes. E entre os adversários está o poderoso Paris Saint-Germain, que goleou a Inter de Milão por 5 a 0 na decisão europeia no último sábado.

“Eu, enquanto treinador do Botafogo e futuro adversário, me preocupo. Vamos enfrentar dois clubes que têm o individual, mas são equipes de futebol: o PSG e também o Atlético de Madrid. Tenho muito respeito ao coletivo. É uma montanha muito grande para subir, mas alguém subiu o Everest quando se dizia ser impossível”, afirmou Paiva.

O Botafogo está no Grupo B do Mundial, ao lado de PSG, Atlético de Madrid e Seattle Sounders. O sorteio colocou o clube brasileiro em rota de colisão com dois dos projetos esportivos mais sólidos da Europa. Paiva não viu a goleada do PSG ao vivo, pois estava viajando com a delegação para o jogo em Santos, mas se disse feliz com o desempenho dos franceses, especialmente pelos jovens que ele próprio ajudou a formar.

“É um resultado anormal para uma competição dessas. Estou imensamente feliz pelos três meninos que estão lá e lançamos: João Neves, Gonçalo Ramos e Pacho. Fiquei muito feliz e não posso esconder que torci para o PSG. Eu, enquanto treinador e apreciador do futebol, dou muito peso ao coletivo. É uma história muito bonita desse PSG”, completou.

Para Renato Paiva, o sucesso recente do PSG simboliza uma mudança de mentalidade que precisa ser observada por todos os clubes. Ele elogiou o trabalho do técnico Luis Enrique e do diretor Luis Campos, responsáveis por uma reformulação do elenco com foco no trabalho em grupo, jovens talentos e contratações menos midiáticas.

“Durante anos e anos eles acumularam jogadores pesados e de nome e houve uma mudança de paradigma com o Luis Enrique e Luis Campos. Olhar para a base, olhar para contratações que ninguém conhece… Isso é visão de equipe.”

Com passagens por clubes da América do Sul e do México, além de experiência no futebol europeu, Paiva voltou a bater na tecla do desequilíbrio entre o que se joga e o que se treina no continente sul-americano. Segundo ele, o Brasil continua sendo o principal celeiro de talentos do futebol mundial, mas ainda enfrenta sérios problemas de estruturação do desenvolvimento desses atletas.

“O Brasil é o melhor país que gera jogadores de futebol, mas é deficitário para desenvolver. Joga-se demais e treina-se de menos. Nós vamos jogar contra quem treina mais e joga menos. Na Europa também joga quarta e domingo? Joga, mas não toda quarta e todo domingo. Estamos com 18 jogos em dois meses. Isso é a metade do Campeonato Português”, criticou.

Ele defendeu que o futebol sul-americano, se quiser competir em alto nível contra os europeus, precisa mudar a mentalidade de desenvolvimento de atletas. Paiva citou sua experiência no Independiente del Valle para exemplificar como ações simples – como controle de peso, alimentação e rotina de treinos – enfrentaram resistência inicial dos jogadores.

“Ao invés de sermos autoritários, explicamos por que era importante comer bem, não ter peso a mais. Tem a ver com os hábitos. Já passei pelo México, pelo Bahia. Vou falar com a realidade do Brasil: não vejo diferença nenhuma com o que vejo na Europa em termos de instalações e profissionalismo. Mas o poder financeiro faz a diferença. Os jogadores querem ir para a Europa porque lá está o dinheiro, a visibilidade, o desenvolvimento. Mas o talento está aqui.”

Por fim, Paiva apontou o que, para ele, é o grande desafio dos clubes brasileiros: treinar mais. “Temos que pensar todos, como eu já disse no México, em melhorar o desenvolvimento individual dos jogadores. O jogador desenvolve no treino. Quanto mais treinar, quanto mais repetir, quanto mais errar, melhor vai ser. Ele chega no jogo e a correção não chega a tempo. No México é o mesmo problema, e não é coincidência que os talentos de lá vão embora cedo.”

Enquanto o Mundial de Clubes ainda é uma projeção para as próximas semanas, o Botafogo segue com foco total no Brasileirão. O próximo compromisso é nesta quarta-feira, às 20h, contra o Ceará, no Engenhão, em jogo atrasado da 10ª rodada.



Por: Estadão Conteúdo

Estadão

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